1.21.2009

3
Como desenvolver a loucura e potenciar instintos sanguinários

Comece por praticar a arte da impaciência todos os dias. Seja ao perder o último autocarro ou pura e simplesmente ao deixar cair o trabalho de 200 folhas soltas que leva na mão. De preferência, folhas não numeradas. Pode sempre descobrir que o prazo que lhe tinham dito para entregar os seus papéis (seja um trabalho ou o IRS) estava errado; e que só soube disso depois de o prazo já ter passado.

Peça à câmara municipal que lhe coloque uma coluna mesmo em frente à janela do quarto a passar músicas natalícias e outras que nem tanto desde as 9 horas da manhã. Sobretudo aos fins-de-semana. Durante mais de um mês.

Em seguida, arranje vizinhos do lado com criancinhas. Criancinhas pequenas brincam e fazem chinfrim todo o santo dia que estão em casa. Mas, se quiser apostar em grande, arranje vizinhos com um bebé. Ou melhor, gémeos. Nesse caso, é provável que tenha a sorte de ouvir as criancinhas chorar noite e dia como se não houvesse amanhã ou não comessem há 15 dias. Caso não queira vizinhos do lado com criancinhas, pode sempre arranjar vizinhos do lado todos felizes e contentes que fazem com que os barulhos da cama a ranger se ouçam todos os dias em todo o prédio, sobretudo no seu apartamento.

Pode sempre tentar perder um comboio quando já está a chegar à estação. Para um sentimento de frustração máximo, deve conseguir carregar no botão para a porta abrir mesmo antes de o comboio começar a arrancar sem você. Pode ainda arranjar uma boleia imediata para a estação seguinte, e lá perdê-lo desta mesma forma. Nada como perder o mesmo comboio duas vezes no mesmo dia.

Falemos agora da sua casa. Nesta altura do campeonato, é de todo o interesse que more num andar alto. Tente guardar a vontade de ir à casa de banho para quando chegar a casa. E quando chegar à porta da entrada do prédio, perca-se a encontrar as chaves dentro da carteira. Quando encontrar as chaves da carteira, não deve conseguir abrir a porta à primeira. Depois de entrar, é de valor que o elevador esteja desligado. Com sorte tem de ir a pé uns quantos andares, a contorcer-se todo para aguentar a bexiga, e ainda carregado de sacos, saquinhos e saquetas, incluindo o saco de 5kg de areia do gato que você só aproveitou trazer porque tencionava ir no elevador.

Arranjar um vizinho que lhe atira piriscas de cigarro quando você vai a passar por baixo da janela dele também é capaz de ser irritante, sobretudo se andar de roupa clara. Isso e descobrir que a sua mãe pôs a sua camisola branca favorita a lavar com a camisola vermelha dela.

Outra ideia importante. Quando for para tomar banho, certifique-se que entra na banheira e se molha todo antes de descobrir que o gás vai abaixo e não se volta a acender. Ou então certifique-se que já está todo ensaboado antes de descobrir que faltou a água. Depois de já ter resolvido a situação e estar todo prontinho e confortável para abancar no seu sofá a ver aquele filme que estava à espera à não sei quantos meses, é bom que lhe dê a sede. Mas uma sede daquelas de deixar a garganta seca a implorar por água. Nessa altura vai ver que não tem água nenhuma na despensa. E da torneira não sai nem uma gota. De facto, a única água que tem são os 8 garrafões que estão na bagageira do seu carro. Olhe para a janela e vai ver um verdadeiro temporal na rua. E vai-se lembrar que teve de deixar o carro no Cu de Judas porque não havia lugar em frente ao prédio. Lembre-se sempre que, ou vai buscar os benditos garrafões e os traz para o seu andar a pé porque está sem elevador, ou é bem capaz de morrer sequinho à sede. É sempre bom lembrar estas coisas, para dramatizar mais a situação.

Tente também destruir coisas. Por exemplo, pode fazer com que a sua impressora se avarie de vez quando estiver de madrugada a meio de uma impressão fundamental para um exame no dia seguinte. Isso ou quando estiver a imprimir um trabalho fundamental para nota para o dia seguinte, também serve. Ou pode também fazer com que o seu computador pura e simplesmente se desligue e deixe de dar sinal de vida.

Mas eis a pièce de résistance: arranje uns vizinhos de cima que queiram fazer obras no apartamento. Mas obras à séria, daquelas que englobam arrancar chão e deitar paredes abaixo. Se tiver sorte que chegue, pode ser que comece a ouvir o barulho ensurdecedor de berbequins que mais parecem estar dentro da sua cabeça a partir das 8 da manhã. Se não se contentar, pode sempre pedir-lhes para começarem a martelar mais cedo. Descubra ainda que os moços das obras só fazem essa chinfrineira nas primeiras horas da manhã, e que durante o resto do dia ninguém os ouve sequer. Vai ver que se sente muito mais feliz por ter acordado com a sensação que o seu tecto lhe ia cair em cima. Eis que, quando pára o berbequim, começa a ouvir o som de água a pingar. Sem parar. Vai ver que dá em doido. Com o passar dos dias, verá que o som dos berbequins é tão impossível de aturar e perturbador que quando o ouve só lhe apetece chegar ao andar de cima, pegar no berbequim e furar o moço todo, começando pelo intestino e saindo no esófago.

Quando chegar a esse ponto, está prontíssimo para se tornar num psicopata.



P.S.: Nada disto alguma vez me aconteceu. Claro que não. Eu sou extremamente paciente.

3 Pessoas leram e ainda comentaram!

I. disse...

Eu também nunca perco a paciência. Sou uma santa criatura, plena de amor ao próximo e, até, ao mais longínquo. Mesmo quando, suponhamos, o vizinho de baixo tem um canito minorca que ladra umas oitavas acima do que é normal, e o fecha sózinho num quarto.
Pois. ;P

Red disse...

eu não falo em cães porque.. bem.. hum... talvez eu tenha um....lool

LP disse...

Infelizmente não conheço ninguém que preencha esses requisitos. Mas quando o descobrir, eu envio-to! =)