3.11.2011

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Basicamente começa assim*:


Primeiro tento eu.

Ponho a bicha em cima da mesa e engano-a vilmente com umas festinhas enquanto ela se roça em tudo o que há para roçar e mia sofregamente. Chego-a a mim. Agarro-a assim, juntinha juntinha, com um braço de volta da bicha e a mão a impedir as patas dela de fazerem asneira, enquanto seguro com a outra mão o instrumento do diabo, digo, a pílula da desgraçada. A bicha não gosta deste género de intimidade. Com a pílula entre o polegar e o indicador, faço ligeira pressão na boca dela, de frente, de lado, onde calhar desde que ela a abra, o limite são os bigodes! A bicha vira a boca para o lado qual criança mal educada. Tento novamente, enquanto ela começa a debater-se com as patas traseiras. Eu só tenho duas mãos, não consigo agarrá-las todas como se ela fosse um coelho. Hora de apanhar a pílula de cima da mesa e segurar outra vez na gata.

Nova tentativa. Nova festa, novo segurar junto ao meu corpo e, muito amigavelmente, pressionar outra vez a obra maléfica contra a boca da dita até ela a abrir. Ela já não se quer roçar em lado nenhum. Finalmente abre a boca. E a pílula cai outra vez.

Apanho a dita, seguro outra vez na bicha. Faço pressão contra a boca para forçá-la a abri-la. A bicha abre e eu empurro lá para dentro e fecho-lhe logo a boca para não sair. Inspecciono e não vejo a pílula, espero que ela engula. Não engole nada, porque está a boiar no balde de lavar o chão que está ali ao pé.

Deixo a gata e vou buscar outra pílula. Entretanto quero apanhá-la outra vez e ela já não quer vir ter comigo. Vou buscá-la debaixo da mesa, ela foge, vou buscá-la à varanda e volto a pô-la em cima da mesa enquanto ela me ameaça. Seguro na bicha, já não tão amigavelmente como no princípio, faço duas festas não muito sinceras e toca de conseguir enfiar a pílula entre as dentuças da gata. Vira a boca para um lado, vira a boca para o outro, revolta-se com as patas traseiras, ameaça-me com aquele miado baixinho, escapa-lhe uma pata e arranha-me um pulso, entretanto já lhe vejo os dentes, está quase, ESTÁ QUASE!!!, que a bicha vence-se pelo cansaço, finalmente abre a boca mas fecha-a logo outra vez, não desisto enquanto seguro com mais força nas patas dela e a aperto contra mim, o cão ladra no chão enquanto olha para a cena, a bicha revolta-se, não a consigo segurar muito mais tempo sem ela se chatear comigo a sério, abre a boca, abre, ANDA LÁ MINHA GALDÉRIA É SÓ ABRIRES ESSA BOCARRA UM BOCADINHO, ela abre, ABRE!, finalmente abriu e eu consegui pôr-lhe a pílula lá dentro. Ela revolta-se, solta-se e cospe a pílula para o chão. O cão apanha-a primeiro que eu. Haja então alguém protegido nesta casa.

Por fim, e depois de já ter algumas feridas de guerra, decido que é capaz de ser melhor esperar por mamãe para a segurar enquanto lhe tento enfiar o comprimido pela goela abaixo. É que esta odisseia não é de uma mulher só.


* Começar por tentar enganar a bicha e pôr a pílula na comida não funciona. Primeiro porque ela é lateira, segundo porque é inteligente e só come à volta.

1 Pessoa leu e ainda comentou!

I. disse...

Ena, é irmã da minha, não é? É. Olha que é. Até o pormenor de comer tudo e deixar o comprimido. Quando um felino é mais esperto que nós, está tudo perdido.