7.12.2011

12
So I'll miss the life in prison.


Um ano lectivo depois, chega-se ao fim de mais uma - provavelmente a mais divertida destes últimos 5 anos - etapa. E foi AWESOME!

Vi ladrões, homicidas, violadores, falsos-sádicos, traficantes, burlões, incendiários, condutores sem carta, vi reclusos que exageram e vi reclusos que mentem sobre o que fizeram (como se não houvesse acesso aos processos).

Vi homens nus a gritar assustadoramente com vários guardas à volta, vi revistas às celas, vi ratos na cave, vi toxicodependentes com um síndrome de abstinência lixado, vi sem-abrigos a passar por uma fase de higienização à entrada (que é como quem diz, rapa o cabelo, toma banho e desinfecta tudo), vi receitas de como fazer bagaço numa cela com recurso a itens à-McGyver.

Vi um recluso que engoliu uma lâmina de barbear mas se esqueceu de tirar a cápsula de protecção, vi o INEM ser chamado por causa de um que se atirou do último andar e ficou em coma, vi vários ferimentos do tipo "olhe-sabe-estava-à-procura-de-uma-coisa-e-caiu-me-o-pé-da-cama-em-cima-e-fez-isto" ou "parti-o-nariz-quando-caí-da-escada", vi delírios paranóides (yei!), vi ataques de raiva, vi casórios, vi histórias de vida tããããão interessantes, vi cartas de amor a funcionárias, vi projectos de vida tipo "quando-sair-daqui-vou-abrir-um-bar-de-alterne!", vi reclusos que me pareciam técnicos, vi técnicos que pensei que fossem reclusos.

Vi guardas prisionais a passar-se dos carretos, vi muitos ciganos e muitos gajos do FCP, vi bastantes romenos e brasileiros, vi malta mais nova do que eu, vi gajos da minha idade, vi alguns que já tinha visto no Centro Educativo, vi roupa mal-cheirosa, vi reclusos que "encontram bocados de haxixe no chão", nunca vi tanto toxicodependente, vi muito analfabruto, vi gente com curso superior, vi reclusos que estão mesmo a frequentar o ensino superior.

Vi como é o recluso que manda na Instituição e não o contrário, vi que eles aproveitam a ideia de terem direitos para fazerem daquilo campo de férias, vi que aquilo não tem condições nenhumas para um campo de férias, vi que a ala dos bem-comportados tem tão melhor aspecto do que as outras e é frequentada sobretudo por homicidas e burlões (mas é que me sinto muito mais segura), vi que o estabelecimento está sobrelotado, vi que os enfermeiros de serviço passam uma fona com as exigências, vi que está tudo sobre-medicado para andar mais calminho e não arranjar problemas, vi que usam tudo para trocar com tudo e que muita coisa se compra às vezes com pouca.

Vi que este EP tem uma fama do caraças e eles não querem vir para cá, mas que o TEP daqui é muito mais amigo e então já querem, vi presos drunfados, vi presos famosos, vi gajos que se evadiram, vi reclusos que estiveram presos a maior parte da vida, vi gente que só lá foi passar uma noite por não terem pago 3€ de multa, vi malta que saiu em ausência ilegítima e andou lá por fora - e até sem usar esquemas nenhuns - uns belos anos antes de se resolver a voltar sem ninguém os ir buscar.

Vi que eles preferem ver a novela do que ir falar connosco a menos que vamos de saia, vi os parentes ricos dos guardas prisionais, ou seja, os do GISP (Grupo de Intervenção e Segurança Prisional, que são guardas com muito mais estilo, coletes almofadados, que andam sempre de G3 em punho e de nariz ameaçador no ar), vi autocarros da cadeia (lindos e amarelinhos cor de diarreia que só eles), vi carros prisionais descaracterizados com aspecto de serem de 1775 e de terem andado na guerra civil a fazerem escolta a carrinhas prisionais a sério, ouvi muitas sirenes, vi dias agitados, vi dias em que não se passava nada, ouvi dizer que se confirma a possibilidade de darem "tratamentos especiais" a agressores sexuais, vi guardas que se pudessem os amarravam a todos e lhes deitavam fogo, vi reclusos que até para irem à sala do dentista precisam de algemas, vi gajos que ficam horas no recreio a andar para trás e para frente com seus súbditos enquanto guardam as suas roupas que secam penduradas nas redes de uma baliza de futebol.

Vi que psicólogo consegue ser mais desvalorizado por técnicos do que por reclusos, tive dias em que chamava 10 e não me aparecia nenhum, tinha dias em que não queria nenhum e vinham-se meter no gabinete, vi um exibicionista com discurso altamente sexualizado, vi que "motivar para a mudança" deve funcionar em 5 em cada 100 (e já não é nada mau), vi que intervenção psicoterapêutica é inexistente (levam com medicação e acompanhamentos e aconselhamentos e já vão com sorte, mesmo a malta com o miolo desregulado), vi muitas teorias da conspiração sobre o sistema, vi muita paranóia e cagunfa, vi muita cagança também, vi de tudo um pouco.



Vou ter saudades daquilo. Agora no mesmo nível gostava de ver o de Leiria (diz que o especial para a malta nova é do piorio - me like it) e claro, o da Carregueira, com os meus queridos agressores sexuais. Um dia, quiçá. Agora siga para bingo, que é como quem diz, para a tese.

12 Pessoas leram e ainda comentaram!

Andorinha disse...

Tu viste isso tudo e ainda curtiste! Que ganda mulher! Adorei o texto, aprendi à brava. Tenho uns putos da Candeia (nao me enganei a escrever, sao miudos q estao em instituicoes de acolhimento temporario e com quem fiz voluntariado) que têm problemas (mentais) a sério, que passam a vida medicados (um deles sem ser medicado nem me aproximo, parece o diabo da Tasmania!) e que acham que a prisão é tipo hotel, tás a ver? Pois, estás :)

Red disse...

tenho um gajo novo que chega lá e me diz que são 3 meses para aproveitar e perder peso... -.-'

Andorinha disse...

Este tipo de que falei específicamente acha que na cadeia ia poder "encher" musculos no ginásio...
Foi um caso (e é) mto complicado, pq acho q o gajo tem laivos de esquizofrenia diagnosticado. Eu tinha-lhe medo pq ele sem medicação perdia o bom senso e tinha um olhar q metia medo. O tipo era tolo, e falava com uma voz mto fininha meia metálica. A sorte (ou não) é que ele era pouco esperto e mto medroso. Mas tinha um grande caparro e qdo se lhe colava o pistão eram precisos 4 homens pro segurar e mesmo assim não era fácil. Nessa altura perdia o medo e ficava com olhos estranhos, uma cena macabra. A discussão eterna entre os membros da Candeia era se o deixavamos voltar a deixar fazer acampamentos connosco ou não.Eu era solenemente contra deixa-lo voltar, mas tenho uma amiga que lhe dava bem a volta e como tal achava q lá pq ela o controlava (a mae dela é psicologa num instituto de doentes mentais e ensinou-lhe uns truques) q nós tinhamos q levar com ele.
No último ano que ele fez acampamento connosco disse-nos q o sonho dele era ir pra prisão pra ter tempo (como se ele fosse mto ocupado) pra ficar "grande" (musculado). Meia volta a instituicao ia busca-lo a casa da mae dele onde o tipo aproveitava pra roubar carros que era pra ver se ia pra prisa. Qdo me chateei à séria mandei 2 murros em cima da mesa e pus fim à palhaçada. Eu fazia voluntariado com crianças de instituições de acolhimento temporário, não era com criminosos.
Não sei se o tipo vai algum dia mudar, mas dadas as condições psíquicas do bacano, du-vi-d-o-DO!
Enfim, é preciso gente como tu que acredite que é possível. Os traumas do Carlos eram tão grandes q nem em mais de 15 anos de terapia se resolveram. Quem sabe um dia o ajudas tu :)

Red disse...

muito moço sai da cadeia musculado, é verdade. há lá uns que davam para belos anúncios de maquinetas de musculação e de halterofilia e coisas dessas. lol

esquizofrénicos são desafiantes mesmo. psicóticos sem medicação não dá para fazer nada. opá mas vai-se a um hospital psiquiátrico nem que seja pequeno como o Sobral Cid de Coimbra e também é demais, está tudo drunfado e a medicação é tanta que qualquer tentativa de trabalhar com eles é infrutífera. Na maior parte dos sítios nestes casos o que se faz é mesmo estabilizar - dá menos trabalho e menos chatices com comportamentos desadequados, mas se se tira a medicação está tudo lixado e tudo na mesma ou pior. A terapia nestes casos é difícil, a medicação é necessária mas dificulta a coisa, mas há que acreditar que é possível.

Quanto à cadeia, há lá muita gente perturbada, oh se há, mas poucos são os que tenham sérias perturbações psicopatológicas (como esquizofrénicos, perturbações de personalidade graves ou deprimidos em grau severo); os que as desenvolvem acabam por depois ser encaminhados para caxias, para o hospital prisional. Agora que são todos excessivamente medicados são: ansiolíticos, antidepressivos, estabilizadores do humor, de tudo um pouco para que andem calminhos, relaxados, durmam mais e discutam menos; ou então para terem moeda de troca com coisas que realmente interessam. E não falo só nos toxicodependentes, esses já são medicados por natureza. Basicamente a sobre-medicação serve para facilitar a vida da gestão de conflitos em instituições em que, na maior parte das vezes, a sua lotação já é overcrowded e muitas vezes consegue ainda ser ultrapassada.

Red disse...

(Sendo de psicologia forense, eu não tenho um grande interesse pela intervenção psicoterapêutica pura da clínica, mas oh, se eu tivesse de escolher uma classe perturbados seriam definitivamente os psicóticos. Isso e perturbações da personalidade. É do mais interessante - e assustador, por existir - que há.)

Andorinha disse...

Gabo-te o espírito, eu morro de medo dos psicóticos. Também tinha um miúdo aqui há 2 ou 3 anos, do Porto, que falava sozinho, tipo conversava em voz alta com a mae e fazia teatros, tudo imaginario. Na altura achei estranho mas nao liguei. Era hipocondríaco e mto chato. Tomava uma pastilha pra dormir, mas era só. E era gordo. Na primeira noite de campo tomou o medicamento mto cedo e caiu-me em cima a dormir. Não imaginas, o puto pesava quase 90 kilos, nao foi fáaaacile!
Mas esse miúdo no ano seguinte nao veio fazer campo pq descobriram q tinha esquizofrenia e psicoses. Entre outras coisas, oferecia-se sexualmente quer a homens quer a mulheres no meio da rua.Obviamente q ja nao o podiamos ter com os outros miúdos. Mas só nessa altura é que dei relevancia aos "teatros imaginarios" do puto.
O que mais confusao me faz é que nao imagino que tipo de vida possa vir a ter alguém q aos 15 anos já apresenta este tipo de doencas...
eu de psicóticos já tive a minha dose! :))

Red disse...

não é um tipo de vida fácil, não... mais para os próximos deles e quem sofre com os seus comportamentos do que para eles próprios, já que eles não têm insight sobre a sua doença e por isso nem se apercebem de que estão mal assim.

I. disse...

AMEI o post. Já tive um "cheirinho" de cadeias na minha vida profissional (há muitos, muitos anos) e percebo do que falas, embora eu só tenha lidado com a teoria.
E se em 100 atingires 5 já é bem bom. Convenhamos: quando eles entram no sistema profissional já muita coisa falhou para trás, desde o nascimento, quiçá, pelo que é utópico pretender uma intervenção hiper eficaz.

(e não vale nada, que eu não mando nadinha, mas acho mega-necessário haver psicólogos nas prisões. é um complemento à intervenção na área social, e médico-medicamentosa. mesmo. e sim, devem andar sobre-medicados, e nem todos precisavam, mas enfim... se cá fora receitam lexotan por qq coisa, imagino lá dentro)

Red disse...

Izinha, o senhor Provedor da Justiça em 2003 também achava essencial ter psicólogos nas prisões, bem como outros antes dele (“a par da degradação das condições de saúde, assiste-se também, sobretudo na última década, à entrada significativa de reclusos com características psico-sociais mais problemáticas,com histórias de vida e enquadramentos sócio-familiares mais desestruturados, e evidenciando mais elevados padrões de agressividade e violência. Também estes factos produzem forte impacto no funcionamento do sistema”). Isso faz com que hoje em dia a maior parte dos estabelecimentos tenha serviço de psicologia, mas psicólogos são poucos. No EPC é uma psicóloga do Serviço e outra que lá vai 15h/semana - para mais de 400 presos, em que grande parte da semana de trabalho da psicóloga de serviço é ocupada com muito trabalho burocrático e pouco trabalho clínico... acho que ainda há EPs sem psicólogo, mas isso já é raro.
Agora a moda é ter um ou nenhum psicólogo na instituição e uma empresa prestadora de serviços de saúde que põe lá um x horas por semana. E isso nem é só com a psicologia... os cuidados de saúde estão cada vez mais concessionados nas cadeias...

JP disse...

A vivência "sui generis" no interior de um EP vista por olhos atentos, interessados e preocupados com as contradições, grandezas e misérias de um sistema prisional.
Post excelente.
Jinhos...

Flora Neves disse...

aaaaaahhh a mim nao me contas tu estas historias mais detalhadamente!

rosa disse...

Redzinha!!

Tu vais ter saudades disso tudo, e eu vou ter, acima de tudo, saudades dos nossos divertidos almoços na tua ilustre companhia :)