5.01.2012

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Para a próxima devo ler as letras pequeninas do contrato.


Li sobre as pestes, a fome e a guerra. Os terremotos e os maremotos. Li sobre o sol queimar os homens e a água transformar-se em sangue.

Também já vi outras hipóteses, como alinhamentos astronómicos e colisões de asteróides com a Terra.

Vi ainda sobre a possibilidade do meu Sporting ser campeão, do Pinto da Costa ser preso ou da minha Académica chegar ao fim do campeonato sem ter o rabo entre as pernas por poder descer a qualquer momento.

Já vi várias teorias sobre o fim do mundo. Mas em nenhuma delas me lembro de ter lido sobre ataques de histeria e invasões ao Pingo Doce.

3 Pessoas leram e ainda comentaram!

Trufas disse...

ótimo blog, parabéns...

José Luís Santos disse...

Como na cidade onde vivo e trabalho não tenho televisão, era alheio (ou imune) ao que se estava a passar. Mas a vida brinda-nos com estórias que nos ficam para contar, caso contrário não teríamos nada a dizer da nossa efémera existência. Tive de ir a um Pingo Doce comprar uma insignificância qualquer e achei estranho deparar-me com um espaço congestionado de viaturas e de gente que saía dali ostentando um ar misto de consumidora de adrenalinas baratas, tipo um Red Bull, marca branca comprada aos ciganos na esquina do mercado, e por outro lado extasiados de verem uma dose de três, ou mais horas de luta livre na televisão. Perguntei-me se o país já estava a saque, como aconteceu em Londres no Verão passado, mas como não vi ninguém com ténis de marca ou um televisor LCD, (perdão, hoje é LED)percebi que não se tratava de nenhum crime público, pois levavam coisas que, de momento, ainda pouco se rouba neste país, uma futilidade chamada comida. Após convencer o porteiro a deixar-me entrar, alguém que fazia figura de segurança naqueles bares "in" em que todos querem entrar mas o espaço só dá mesmo para alguns, foi o clímax total: Os meus olhos contemplavam o orgasmo do "Chaos" sobre o dantesco, da anarquia não politizada, da bandalheira em que, desta vez, não eram apenas as senhoras quase à luta por um pacote de leite meio gordo, mas também os seus companheiros, que regra geral quando vão às compras adoptam sempre aquele ar de seguidismo da "grande timoneira" do carrinho de compras para, desta vez, fazerem uso da sua fora bruta, altura, ou diâmetro da barriga, para se imporem e assim conseguirem levar o bacalhau graúdo que restava como se as suas vidas dependessem disso. Para mim, estes comportamentos faziam "dumping" ao estabelecido pela nossa sociedade ocidental (excepção dos EUA quando abrem os saldos de Natal). Frustrado ali fiquei, limitando-me ao "ver para crer" de S. tomé, sem desta vez poder recorrer à máquina fotográfica que sempre me acompanha. "In extremis", cheguei a ponderar que o senhor soares dos Santos (o boss) estivesse na avenida principal munido de um pau cravado de pregos a encaminhar aquela gente para ali, mas não era mesmo gente sedenta de sangue a 50% de desconto para fazer um arroz de cabidela ao jantar, entre tantas outros produtos, necessários e fúteis, que urgiam desaparecer daquelas intermináveis prateleiras. Pareceu-me ver sangue, mas eram só os restos mortais de uma anónima garrafa de vinho partida. Concluí que o que os moveu foi um daqueles anúncios que nos aparecem no ecrã do computador a dizer "Você é o consumidor 999999999 do Pingo Doce e foi escolhido para ganhar um magnífico desconto! Despache-se, pois a promoção pode acabar!". Onde andam os psicólogos neste país?

José Luís Santos disse...

Em jeito de remate final, cumprimentos de um lousanense com sangue mirandense. Apreciei a escrita, e a atitude. parabéns.
Aceito reclamações, suposições, mas sem nada de complicações. joseluissantos53@hotmail.com