
O Pio Abreu é grande. Uma pessoa queixa-se da bibliografia de Psicopatologia porque, pois claro, disto não nos mandam eles ler. E olhem que acredito ser uma boa maneira de memorizar melhor as características das adoradas perturbações que damos nas aulas…
Como tornar-se doente mental é brilhante. Ensina-nos como nos tornarmos uma série de coisas giras que povoam a bíblia do pseudo-futuro-psicólogo (como eu): leia-se, o DSM. É ou não é uma grande ideia? Senão vejamos: o que resulta melhor do que a psicologia invertida?! (Se não sabe o que isto é, chegue ao pé de alguém e diga-lhe “está… uma coisa… no teu ombro… mas não olhes!!!” e já fica a saber.) É que se havia gente com dúvidas, tem aqui um belo manual. E nós agradecemos por ter trabalho.
Cá ficam uns belos ensinamentos:
Como tornar-se… fóbico:
"Se o leitor quiser ser fóbico, existe uma palavra que tem de retirar do seu dicionário: medo. Você está com as pernas a tremer, o peito afogueado, o coração a bater insuportavelmente, os pêlos eriçados, desfaz-se em suores frios, tem os olhos arregalados, mas não tem medo. Tem antes uma fobia, um ataque de pânico (passe o estúpido nome que os psiquiatras lhe deram), uma crise nervosa, mas medo, nunca.
Como ter… ataques de pânico constantes:
"Atente minuciosamente na sua cabeça e verifique a desconcentração que isso lhe dá, bem como as tonturas que a hiperventilação lhe provoca (esquecendo porém esta relação de causa e efeito): sentir-se-á perante a proximidade da loucura ou a possibilidade de desmaiar. Concentre-se nas dificuldades de respirar, preocupe-se com a garganta, a falta da sensação do suspiro, e logo pensará que lhe vai faltar o ar (é uma grande ajuda que o nariz de vez em quando se entupa, levando-o ao hábito de forçar a respiração).
Preocupe-se ainda com o seu estômago a borbulhar (consegue-o depois de baralhar suficientemente os gases corporais, suspirando ou engolindo ar depois de comer) e logo se sentirá desfazer-se em diarreia ou vítima de congestão.
Escusado será dizer que, em todos estes casos, você se vai assustar genuinamente e chegar ao descontrolo, o que o leva a respirar mais ainda e a complicar tudo até à exaustão."
Como tornar-se… paranóico:
“O seu lema deverá ser: CONFIAR NOS OUTROS É A COISA MAIS ESTÚPIDA QUE EXISTE. O paranóico não esquece nem aceita traições. Se optou por ser paranóico, não vá nessa. Você é superior a todos esses miseráveis. É a honestidade em pessoa e nunca praticará traições. Está sempre vigilante e apto a fazer justiça ao primeiro sinal de más intenções dos outros ou à mínima possibilidade que isso aconteça. Isto significa que irá exercer justiça desde o início de qualquer relação. Se alguém ousar argumentar as suas razões – NEM SEQUER O OIÇA – porque ele apenas está a admitir que o traiu. Contra-ataque ao mínimo sussurro, pense e exponha a razão que a si próprio lhe assiste (TRANSFORME-SE NUM CHATO) e prepare-se para fazer justiça.
Quem quer ser diagnosticado como paranóico tem que se habituar a ver os outros como invejosos, ciumentos, coléricos, ressentidos, mal intencionados, e não pode perder a mínima oportunidade de lhes dar a entender tal facto. Em resposta, aqueles perderão o controlo e tornam-se piores do que você. Isso vai dar-lhe um grande alívio e montanhas de novas razões para justificar o seu comportamento”.
Como tornar-se... obsessivo-compulsivo:
"Se você quiser ser obsessivo-compulsivo, a primeira coisa que se tem de convencer é a de ter de ser perfeito. Sabe muito bem que todos os outros são pessoas cheias de defeitos e vícios, por isso sentir-se-á superior a todos. Claro que levará uma vida desgraçada e dolorosa, mas a vantagem moral de ser superior aos outros compensa o suficiente. Aos poucos habituar-se-á mesmo a tirar partido da sua desgraça e acabará por ter prazer com a sua dor. O masoquismo afinal também existe."
"Se não mentir a si próprio, descobrirá que é uma pessoa com limites e deixará de querer ir a todas, como fazem os fóbicos. Também não será dono da verdade nem tão importante como são os paranóicos. Não será o mais perfeito, o que fica para os obsessivos, nem tão brilhante ou poderoso como os histriónicos ou psicopatas. Não será uma pessoa muito especial, como os esquizofrénicos, nem um génio, como os maníaco-depressivos. Será apenas uma pessoa comum que aceita os desafios e os paradoxos da vida, faz o possível para, em cada momento, dar o que pode e actuar em conjunto com os outros. No entanto, tem de assumir a responsabilidade completa das suas acções. Afinal, todos fomos expulsos do Paraíso e condenados à solidariedade. Fizemos das fraquezas forças e, uns com os outros, construímos coisas admiráveis.
Convenhamos, entretanto, que tudo isto é muito complicado, pouco gratificante e difícil de fazer. Fácil, fácil, é mesmo tornar-se doente mental."
in Como tornar-se doente mental, de Pio Abreu
Uma questão: os doentes mentais têm maçãs a tapar-lhes a cara…? Isso não vem no DSM.